O fotógrafo Joachim Berthoud não conseguia
consolar-se da morte da mulher. Matou-se em
Fontenay-sous-Bois.


O abade Andrieux, de Roannes, a Aurillac,
trespassado na quarta-feira a tiros de espingarda
por impiedoso marido, morreu ontem à noite (Havas).


Por desaguisado político, os Srs. Bégouen,
publicista, e Bepmale, deputado, tinham-se
tratado de «ladrão» e «cobarde». Reconciliaram-se (Despacho particular).

Félix Fénéon, "Histórias em três linhas".
...fecho encerro reverbero aqui me fino aqui me zero não canto não conto não quero anoiteço desprimavero me libro enfim neste livro neste voo me revoo mosca e aranha mina e minério corda acorde psaltério musa nãomaisnãomais que destempero joguei limpo joguei sério nesta sêde me desaltero me descomeço me encerro no fim do mundo o livro fina o fundo o fim o livro a sina não fica traço nem sequela jogo de dama ou de amarela cabracega jogo da velha o livro acaba o mundo fina o amor despluma e tremulina a mão se move a mesa vira verdade é o mesmo que mentira ficção fiação tesoura e lira que a mente toda se ensafira e madriperla e desatina cantando o pássaro por dentro por onde o canto dele afina a sua lâmina mais língua enquanto a língua mais lamina aqui me largo foz e voz ponto sem nó contrapelo onde cantei já não canto onde é verão faço inverno viagem tornaviagem passand’além reverbero não conto não canto não quero descardenei meu caderno livro meu meu livrespelho dizei do livro que escrevo no fim do livro primeiro e se no fim deste um um outro é já mensageiro do novo no derradeiro que já no primo se ultima escribescravo tinteiro monstro gaio velho contador de lériaslendas aqui acabas aqui desabas aqui abracadabracabas ou abres sésamoteabres e setetrelas cada uma das setechaves sigilando à tua beira à beira-ti beira-nada vocêvoz tutresvariantes tua gaia sabença velhorrevelho contador de palavras patranhas parêmias parlendas rebarbas falsário de rebates finório de remates useiro de vezos e vezeiro de usos tuteticomigo conosconvosco contingens est quod potest esse et non esse tudo vai nessa foz de livro nessa voz e nesse vós do livro que saltimboca e desemboca e pororoca nesse fim de rota de onde não se volta porque no ir é volta porque no ir revolta a reviagem que se faz de maragem de aragem de paragem de miragem de pluma de aniagem de téssil tecelagem monstrogaio boquirroto emborcando o teu solo mais gárrulo colapsas aqui neste fim-de-livro onde a fala coalha a mão treme a nave encalha mestre garço velhorrevelho mastigador de palavras malgastas malagaxas laxas acabas aquiacabas tresabas sabiscôndito sabedor de nérias com tua gaia sabença teus rébus e rebojos tuas charadas de sonesgas sonegador de fábulas contraversor de fadas loquilouco snobishomem arrotador de vantagem infusor de ciência abstractor de demência mas tua alma está salva tua alma se lava nesse livro que se alva como a estrela mais d´alva e enquanto somes ele te consome enquanto o fechas a chave ele se multiabre enquanto o finas ele translumina essa linguamorta essa moura torta esse umbilifio que prega à porta pois o livro é teu porto velho faustinfausto mabuse da linguagem persecutado por teus credores mefistofamélicos e assim o fizeste assim o teceste assim o deste e avrà quasi l’ombra della vera costellazione enquanto a mente quase-íris se emparadisa neste multilivro e della doppia danza


- Haroldo de Campos 

Inscrição numa pedra

«Converto-me em pedra e a minha dor permanece.»
Traduzir. Mas, para que idioma? E como?
Pedem-me que traduza. Algo pede para ser traduzido,
como se não estivesse já escrito. Há outras palavras?
Tudo está já escrito. E com a mesma escrita.

En resa till jordens medelpunkt och andra dikter, 1966

Hei-de ser tudo...



Hei-de ser tudo o que eles querem:
a raiva é toda de eu não ser um espelho
em que mirem com gosto os próprios cornos,
as caudas com lacinhos, e os bigodes
de chibos capripédicos.
Não sou sequer imagem.
Mas voz eu sou
que como agulha ou lança ou faca ou espada
mesmo que não dissesse da miséria
de lodo e trampa em que se espojam vis
só porque existe é como uma denúncia.
Hei-de ser tudo, não o sendo. Um dia
— podres na terra ou nos caixões de chumbo
estes zelosos treponemas lusos —
uma outra gente, e limpa, julgará
desta vergonha inominável que é
ter de existir num tempo de canalhas
de umbigo preso à podridão de impérios
e à lei de mendigar favor dos grandes.

JORGE DE SENA


"Tapeçaria", de Charles Simic

Está pendurada do céu até à terra.
Há nela árvores, cidades, rios,
porquinhos e luas. Num canto
a neve cai sobre uma carga de cavalaria,
noutro mulheres plantam arroz.

Também se pode ver:
um frango arrastado por uma raposa,
um casal nu na sua noite de núpcias,
uma coluna de fumo,
uma mulher de mau olhado cuspindo para um balde de leite.

O que está por trás dela?
- Espaço, um enorme espaço vazio.

E quem está agora a falar?
- Um homem que adormeceu com o chapéu posto.

O que acontece quando acordar?
- Ele irá a uma barbearia.
Raparão a sua barba, nariz, orelhas e cabelo,
para que se pareça com todos os outros.

(in Previsão de Tempo para Utopia e Arredores; trad. José Alberto Oliveira)

Sandías (Charles SImic)

En el puesto de fruta,
Budas verdes.
Comemos la sonrisa
y escupimos los dientes.